A primeira coisa que eu implorei para que fizessem quando recebi a notícia do desaparecimento do meu gato favorito, foi que procurassem o Gaspar na marquise do prédio. Caio, nosso ex-roomate o fez, mas não encontrou nada. Desde que cheguei, 23 dias depois do sumiço e 28 fora de casa, cheguei a pensar seriamente em alucinação, pois ouvi barulhos felinos que tentavam subir paredes e chamar miando. Várias vezes fui pra sacada fazer os sons que o chamam e pensei em andar pela madrugada atrás dele. Pensei também em engenharias para ajudá-lo a voltar, caso tivesse caído na rua. Meu irmão esteve em casa nos últimos 16 dias e não aconteceu nada.
Por volta das quatro da manhã dei ouvidos à minha percepção e fui olhar para a marquise. E vi o Gaspar lá embaixo, todo sujo e assustado. Me segurei para não me atirar pela janela e desci rapidamente para pegá-lo, mas ele fugiu. Estava apavorado, voltou para a marquise do Motel e miou desesperadamente cada vez que me ouviu. Fui falando mansinho com ele, com cuidado, chamando e acalmando. Subi e busquei duas cadeiras, na tentativa de facilitar pra ele escalar de volta pra sacada. Esperei alguns minutos e ele não se moveu, só gritou. Até que, o encorajando, consegui que ele viesse pra mais perto. Eu fui pro final da marquise e coloquei uma cadeira numa estreita passagem que liga o prédio do motel com o nosso, bem perto dele, pra ele subir. Ele reconheceu a cadeira, unhou o estofado como sempre fez, mas estava por demais aterrorizado para fazer qualquer outra coisa. Resolvi descer um pouco, correndo grande risco de cairmos os dois dali. Consegui pegá-lo e trazer para a cima, com ajuda do Leo, que nesse meio tempo acordou pra ir ao banheiro. Vi que ele parecia estar com metade do peso assim que peguei no colo e o abracei também extremamente emocionado. Ele pareceu me reconhecer desde o início e me procurou a noite toda.
Ele estranhou sua irmá-esposa, seu filho primogenito, sua filha e sua caçula e não ficou nenhum pouco à vontade quando eles estiveram por perto. Todos o reconheceram e procuraram, mas ele só queria minha cama e eu. Nenhum carinho para eles. Coincidencia feliz, entre as primeiras providências que tomei pra arrumar a vida depois de tantos dias viajando, foi comprar frango, pra mim e pra eles. Gaspar comeu primeiro e bastante, mas não até se empanturrar. Ele foi ao banheiro, no lugar destinado pra isso no quarto deles, e deixou lá uma massa muito diferente da que sempre vi deles. Era dura, bastante fibrosa e negra. Examinando a consistência me pareceu serem folhas e galhos. A sede pareceu menor que eu esperava e o carinho, saudade, solicitação e reconhecimento dele foram impressionantes.
Quase três horas depois, ele não relaxou e nem eu. Já estamos mais calmos, mas não prontos pra dormir. Ele está imundo, mas parece bem e sem ferimentos. Veremos como ficam as sequelas "psicológicas". Eu estou tremendamente grato pela nova chance. Estava mesmo difícil administrar essa perda, especialmente pela coisa pavorosa do desaparecimento, em que as notícias chegam truncadas e retratando distorcidamente a realidade. Edgar também me recebeu com pleno reconhecimento e saudade. Ele mal se conteve, me procurando e solicitando o tempo todo. As fêmeas pouco ligaram para minha presença, mas eles mostraram intensamente o quanto sentiram a minha falta. Eu não creio que tenha sentido menos, apesar de ser possível. Que seria eu para eles? Por que Gaspar reconheceu a mim e não sua família biológica? Tive a impressão de que pra ele eu faço parte do espaço. Essa idéia me ocorreu quando tentei inicialmente isolá=lo em um quarto que ele desconhecia. Dormiremos juntos hoje e muitas outras noites, com cuidados e responsabilidade redobrados. Hoje, apesar de descobrir que talvez minha câmera de vídeo não vá mais funcionar, estou muito feliz!

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